por Thiago Campi
Em 2017 representei o órgão Ambiental em que atuo em uma missão técnica relacionada à gestão de resíduos sólidos na cidade de Acra, capital de Gana. Além de representar uma oportunidade de conhecer a realidade de um país africano em rápido desenvolvimento, a viagem permitiu observar de perto um dos mais emblemáticos exemplos dos desafios globais associados ao consumo, descarte e reciclagem de equipamentos eletrônicos. Entre as atividades programadas estava a visita a uma área que se tornou internacionalmente conhecida por concentrar enormes volumes de resíduos eletroeletrônicos provenientes de diversas partes do mundo.

Acra abriga um dos mais conhecidos destinos de resíduos eletroeletrônicos do planeta. Embora o local seja frequentemente associado à reciclagem informal e à recuperação de materiais valiosos, sua existência expõe um problema muito maior: as profundas desigualdades ambientais que caracterizam a economia global contemporânea.

Na região oeste da cidade encontra-se um dos maiores centros de descarte e processamento informal de resíduos eletroeletrônicos do mundo. No local, milhares de pessoas obtêm sua subsistência desmontando equipamentos e recuperando materiais recicláveis, especialmente metais como cobre, alumínio e aço. Computadores, refrigeradores, televisores e outros aparelhos são desmontados manualmente, muitas vezes sem equipamentos de proteção e em condições extremamente precárias.

Entre as atividades mais comuns está a recuperação do cobre presente nos cabos elétricos. Para separar o metal de sua cobertura plástica, os fios são frequentemente queimados a céu aberto. O resultado é a emissão contínua de fumaça, fuligem e substâncias tóxicas que afetam tanto os trabalhadores quanto o ambiente ao redor.

Outro problema está relacionado ao desmonte inadequado de equipamentos antigos de refrigeração. Sem qualquer controle técnico, esses aparelhos podem liberar gases prejudiciais à atmosfera, além de outros contaminantes presentes em seus componentes.

As consequências ambientais e sanitárias são amplas. A queima de resíduos pode gerar compostos tóxicos persistentes, como as dioxinas, que se dispersam pelo ar, depositam-se no solo e entram na cadeia alimentar. Os impactos não se restringem aos trabalhadores diretamente envolvidos nas atividades, mas alcançam comunidades inteiras e podem perdurar por décadas.

Grande parte dos resíduos que chegam a Gana tem origem em países desenvolvidos. Em muitos casos, trata-se de equipamentos usados exportados legalmente para prolongar sua vida útil em mercados onde ainda possuem valor econômico. O problema surge quando esses produtos atingem o fim de sua vida útil em locais que frequentemente não dispõem de infraestrutura adequada para reciclagem ou destinação final ambientalmente segura.

Esse fluxo internacional de materiais evidencia uma contradição relevante da economia global. Enquanto os benefícios do consumo tecnológico são amplamente distribuídos, os impactos ambientais associados ao descarte tendem a se concentrar em regiões mais vulneráveis, frequentemente com menor capacidade regulatória e tecnológica para lidar com os resíduos gerados.

O caso de Acra também convida à reflexão sobre situações observadas em diferentes partes do mundo, inclusive no Brasil. Embora em intensidades distintas, ainda são frequentes cenários marcados pela ausência de saneamento adequado, ocupações em áreas de risco, exposição a passivos ambientais e acesso desigual à infraestrutura urbana.

A discussão sobre resíduos, portanto, vai muito além da reciclagem: envolve comércio internacional, justiça ambiental, desenvolvimento econômico, governança pública e responsabilidade compartilhada entre produtores, consumidores e governos. Em um mundo cada vez mais dependente da tecnologia, o desafio não é apenas produzir e consumir de forma eficiente, mas garantir que os custos ambientais desse modelo não sejam transferidos para as populações mais vulneráveis.
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