Fotografia: André Inidio
GAROTA GUATEMALTECA
Quando penso em retratos que atravessaram décadas é impossível não lembrar da célebre "Garota Afegã", fotografada por Steve McCurry em um campo de refugiados no Paquistão. A força daquela imagem não estava apenas nos impressionantes olhos verdes da jovem, mas na capacidade de condensar, em um único rosto, uma cultura, uma história e um momento.
Recentemente, na Guatemala, vivi uma experiência que me fez recordar essa ideia. Não pela semelhança entre as personagens ou pelas circunstâncias em que foram fotografadas, pois eram muito distintas. Enquanto a jovem afegã se tornou símbolo de um povo marcado pela guerra e pelo deslocamento, a garota que conheci vivia em uma pequena comunidade do interior da Guatemala, preservando tradições herdadas de seus ancestrais maias.
A jovem pertencia ao povo Q'eqchi', um dos grupos maias que ainda preservam sua língua e muitas de suas tradições ancestrais. Entre elas, a relação com o cacau, ingrediente que há séculos ocupa um lugar especial na cultura maia.
Naquele final de tarde, fui conhecer o processo artesanal de produção do chocolate. Vi cada etapa: a torra das sementes, a moagem, o preparo da massa e, por fim, a transformação em barras prontas para consumo. Mais do que uma demonstração, foi uma imersão em um conhecimento transmitido por gerações.
À medida que a noite caía, a luz natural desapareceu por completo. Restou apenas uma pequena lâmpada iluminando o interior da cabana. Foi nesse ambiente simples e autêntico que surgiu a fotografia que acompanha este texto. Não houve poses elaboradas nem direção excessiva. Depois de horas compartilhando aquele conhecimento ancestral, minha presença já fazia parte da rotina da casa. Quando encontrei o enquadramento e a luz que procurava, ela respondeu com um sorriso espontâneo e genuíno.
Se a fotografia de McCurry nos convida a olhar para uma realidade distante através de um olhar intenso, esta imagem me recorda outra das grandes virtudes da fotografia: a capacidade de celebrar a dignidade, a alegria e a riqueza cultural das pessoas que encontramos pelo caminho. Em ambos os casos, mais do que retratos, são encontros que permanecem vivos muito depois do clique.
Thiago Campi é um fotógrafo com grande interesse em ciências naturais, astronomia e conservação ambiental. Atua há 20 anos em uma agência ambiental estatal e em paralelo conduz seu principal projeto autoral, o LUZ OCULTA, no qual registra o céu noturno e a poluição luminosa no entorno de Unidades de Conservação.
É membro do grupo de fotografia Bulb f/22 desde 2022.
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