TURISTIFICAÇÃO
Chame a boa e velha cantina de osteria e cobre o triplo, mesmo que a origem do termo “osteria” indique um local modesto, rústico e que serve pratos simples.
Coloque uma piscina com música alta e cerveja no meio da floresta e transforme o sossego da mata no caos da cidade, atraindo o público para a “natureza”, mas em um ambiente ruidoso e super ocupado, no qual não é possível sequer ouvir a vocalização dos pássaros.
Existem algumas formas de se referir ao termo TURISTIFICAÇÃO. Prefiro utilizá-lo como algo similar à “gourmetização”, ou seja, a tendência de transformar lugares com características ambientais, naturais, históricas ou culturais autênticas, que sempre existiram e estiveram disponíveis, em uma releitura que agrega um valor percebido pela aplicação de um verniz de entretenimento puro ou de sofisticação, geralmente reduzindo a complexidade do local e seus habitantes a um nível cenográfico.
Devemos entender como turistificação quando a organização do espaço passa a ser orientada principalmente para visitantes e para consumo turístico, em detrimento da manutenção das características originais do lugar.
Alguns fatores podem estar colaborando para aumentar a ocorrência deste tipo de situação, dentre eles, com toda certeza dois são dos mais relevantes: as redes (anti) sociais, por serem verdadeiras vitrines de vida perfeita, ostentação, desejos e compras, alimentam a noção de escassez e urgência das pessoas para o consumo. Para se sentirem bem, incluídas em um grupo privilegiado ou buscarem a felicidade no consumo, passam a procurar as experiências que veem seus pares ou influenciadores desfrutar.
Além disso, a facilidade de reservar hospedagem e transporte online estimula a procura por essas experiências. O problema para os moradores aparece quando a perspectiva de ganhar mais com estadias turísticas leva proprietários a retirar imóveis da locação de longo prazo. Encontrar onde morar torna-se mais difícil, permanecer pode se tornar inviável e o morador acaba cedendo lugar ao visitante. Muitas cidades europeias passam por um verdadeiro apagão de disponibilidade de imóveis para locação de longo prazo, e vêm adotando regramentos específicos para evitar a gentrificação nessas cidades turísticas.
É evidente que o mercado do turismo traz consigo movimentação na economia, gera renda e estimula o consumo. Não é essa a crítica. A questão é que uma atividade que transforma territórios e interfere na vida de quem vive neles não pode operar sem regras e sem controle, uma vez que é inerente a grande parte dos indivíduos da nossa espécie buscar vantagem individual e imediata em detrimento do bem-estar coletivo e ao meio ambiente.
No Brasil esse efeito é amplificado. Na terra do santo do pau oco e da lei de Gérson, culturalmente é assimilado por uma parte significativa da população passar por cima de regras, ética ou interesse coletivo para se obter vantagem pessoal. Sob esse aspecto, a crítica é no sentido do que na prática pode ser traduzido em uma pergunta: “Se posso explorar economicamente este lugar agora, por que não?”, mesmo que isso prejudique moradores, patrimônio ambiental, cultural, histórico e até mesmo a própria existência futura do destino explorado. Essa lógica, combinada com uma população pouco crítica e muito mais preocupada em se divertir do que em conservar o patrimônio ambiental, histórico ou cultural, é um prato cheio para a balbúrdia.
Assim, dada a demanda do mercado, a exploração do turismo vem antes da organização do turismo. Isso acontece porque falta presença do Estado, tanto para estabelecer limites e regramentos, como para induzir a atividade turística de forma ordenada nos territórios de interesse e aptos para tal. Para isso é necessário realizar estudos complexos sobre demanda, capacidade de suporte e financiar infraestrutura, logística, bem como fomentar a implantação de negócios locais para atender à demanda projetada/esperada.
Em linhas gerais o turista é um consumidor de entretenimento, que tem uma postura passiva e consome um produto planejado para ele. Sob essa premissa, é muito mais eficiente e de custos mais previsíveis para a indústria do turismo oferecer sempre as mesmas experiências transformadas em produtos para todos os seus clientes. Como resultado, essas vivências turísticas tornam-se algo homogêneo e uma repetição tediosa e irritante com fotos e relatos absolutamente iguais nos perfis das redes (anti) sociais desses consumidores.
Mesmo quando o turista busca experiências mais autênticas, o que é muito comum no turismo cultural, histórico ou de natureza, o mercado percebe essa tendência e passa a oferecer uma espécie de autenticidade encenada. Ao visitar as Ilhas dos Uros no lago Titicaca, entre Peru e Bolívia, vivi uma das situações mais patéticas que já presenciei no turismo massificado: o turista crê estar vivendo os bastidores e a realidade do local, mas na verdade está recebendo um “ultraprocessado turístico”, ou seja, os bastidores e o ambiente natural já foram organizados para serem consumidos da forma mais conveniente para quem vende esse produto. As pequenas ilhas feitas de totora, uma planta aquática, que no passado existiam às centenas e eram, de fato, onde as famílias da região viviam, tornaram-se apenas um lugar onde os turistas passam por uma experiência teatral, simulando como era a vida naquela região no passado. Seria honesto se isso fosse transparente e esclarecido ao visitante desde o início e não vendido como uma experiência autêntica. A autenticidade nesse caso é inexistente.
Existe uma infinidade de situações idênticas à das ilhas dos Uros. Eu poderia escrever um livro apenas contando as que presenciei, mas o importante é refletir que a maneira de conhecer e vivenciar lugares de forma genuína, onde a estrutura para atender à necessidade do visitante se adapta à realidade e ao atrativo local é a maneira do VIAJANTE. Essa diferenciação entre TURISTA e VIAJANTE aparece em muitos textos, agentes e operadores de viagens que têm um propósito maior em seus trabalhos e serviços oferecidos: jamais destruir as características e os atrativos do lugar.
Entretanto, não basta adotar o termo VIAJANTE para si, como é muito comum em diversos outros rótulos comumente adotados pelas pessoas para sinalizar virtude, mas com pouca efetividade na vida prática. É necessário AGIR como viajante.
O TURISTA procura o lugar adaptado às suas expectativas. O VIAJANTE se dispõe a adaptar suas expectativas ao lugar. Essa diferença não está na distância percorrida, no preço da viagem ou na quantidade de carimbos no passaporte. Está na disposição de aceitar que um destino existe para além da nossa visita e não tem obrigação de se reorganizar para nos agradar.
Infelizmente, muitos dos destinos incríveis do planeta que outrora foram de viajantes já se perderam, uma vez que foram cooptados pelo moedor de carne da turistificação. Para quem busca conexões reais e experiências autênticas, a saída parece ser procurar outro lugar. Mas é justamente aí que o ciclo se revela, pois o viajante, mesmo que indiretamente, não é inocente: ao buscar lugares pouco visitados, contar suas experiências e divulgar suas descobertas, ele também pode abrir caminho para a transformação que tanto critica. A descoberta vira recomendação, a recomendação vira tendência, a tendência atrai investimentos e o lugar passa a se organizar em função de quem chega. Quando a experiência perde o sentido, o VIAJANTE parte em busca de outro destino. E o ciclo pode recomeçar.
Trocar de destino, portanto, não resolve a contradição. O desafio é reconhecer que nossa passagem produz efeitos e que, sim, em muitos casos, a visitação precisa ser controlada e até mesmo restringida, mesmo quando nossas intenções são boas. Afinal, se para desfrutar de um lugar é preciso transformá-lo naquilo que já se conhece, o que exatamente fomos buscar tão longe?
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